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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

UM POUCO DE PAIXÃO CÔRTES

PAIXÃO CÔRTES


O folclorista Paixão Côrtes, personagem decisivo da cultura gaúcha e do movimento tradicionalista no Rio Grande do Sul é o 16o entrevistado de Passado Presente, série que revista a formação do pensamento crítico contemporâneo no Estado
É realmente uma pena que o jornal não tenha som, porque a entrevista que se vai ler ganharia muito se fosse acompanhada do verbo vivo do entrevistado. João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes é uma figura inesquecível em vários sentidos, incluindo o sentido da audição: as pausas, as ênfases, as exclamações, as suspensões, os "Bá" alongados, a entoação para acompanhar a referência a uma antiga canção, tudo isso é irrepetível na folha de papel.
Um pouco assim, inapreensível, é o valor e o alcance da obra de nosso entrevistado. Nascido a 12 de julho de 1927, em Santana do Livramento, de pai agrônomo e mãe dotada de boas qualidades musicais, Paixão Côrtes parece ter sintetizado essas duas marcas - formou-se em Agronomia também, e é artista também, não do canto mas da dança - e ao mesmo tempo parece haver ultrapassado os limites do que se poderia esperar de alguém com sua história. Por quê? Porque ele é um dos sujeitos diretamente responsáveis pelo nascimento da atual voga gauchesca. "Um dos" é muito pouco: Paixão Côrtes é um dos dois formuladores e animadores decisivos do movimento tradicionalista gaúcho - o outro é o falecido Luiz Carlos Barbosa Lessa, a quem nosso entrevistado se refere como "o Lessa", um sujeito quieto, com pendor literário e intelectual, de alguma maneira o oposto complementar de Paixão, mais arrebatado, mais homem de ação e iniciativa.
A estrada foi longa e cheia de percalços. Começa, talvez, na vivência campeira. Segue na experiência de peão, desempenhada todas as férias, em contraponto com a vida escolar urbana em Santana, Uruguaiana e Porto Alegre, sucessivamente. Continua, quem sabe, na dura passagem em que perde o pai e precisa trocar o colégio privado pelo público, o diurno pelo noturno, a vida relativamente inconseqüente pelo trabalho. Deslancha, a partir de 1947, quando se junta com amigos igualmente interioranos e saudosos da vida agauchada (entre os quais Lessa) e com eles literalmente inventa uma tradição: a de fazer vigília de um fogo tirado à Pira da Pátria, que arderá dali por diante pela imaginária, afetuosa, desejada "pátria" sul-rio-grandense.
Paixão Côrtes e Barbosa Lessa partem para a pesquisa de campo, para recuperar traços de cultura popular local eventualmente sobreviventes à avalancha da cultura norte-americana, quer dizer, estadunidense, que, vitoriosa na II Guerra, cobrou um preço alto das neocolônias. Paixão e Lessa, expressando ativamente o mal-estar do momento, partiram para a ação, viajando pelo Interior para salvar o passado da intensa voragem novidadeira. Estava sendo gestado o lado cultural-popular do tradicionalismo, antes mesmo de a palavra "folclore" entrar no discurso de todo mundo.
Paixão Côrtes não se limitou a isso. Serviu de modelo para a estátua do Laçador e foi garoto-propaganda televisivo, nos primórdios do veículo, vestido à gaúcha quando isso era ainda uma esquisitice. Organizou o 35 CTG, liderou grupos de música e dança, viajou à Europa como artista, fez e aconteceu. Poderia estar calmamente, agora, curtindo as glórias de sua intensa vida. Mas não: parece mais ativo que nunca, insatisfeito com certos aspectos do tradicionalismo. Ele diz que a coisa está muito amarrada, embretada, com pouca variação.
A sensação que fica é de que mais três dias de entrevista ainda não seriam suficientes para ouvir tudo o que ele tem para contar. Mas o espaço é finito, e o foco desta entrevista, realizada em sua casa, em Porto Alegre, foi o período de gestação deste fenômeno absolutamente impressionante que é o mundo do tradicionalismo, dos CTGs, da identidade cultural gaúcha, que ele ajudou a estabelecer. Vida e obra associadas fortemente, as de Paixão Côrtes, um sujeito da maior relevância para entender nosso tempo.
"Me chamavam de guasca. Eu não me ofendia"
Genaro Joner, banco de dados/ZH - 18/10/99
Na 16a entrevista da série Passado Presente, que revisa a formação de figuras proeminentes da cultura gaúcha, o folclorista Paixão Côrtes recorda como se deu a criação do movimento tradicionalista: "Eu ia pilchado para o colégio. Me chamavam de guasca de fora. Eu não me ofendia. Sabia o que eu era".
Cultura - O senhor nasceu na zona rural?
Paixão - Não, nasci na cidade. A casa de meu avô ficava numa das principais ruas de Santana. Meu pai alugou a casa ao lado. na esquina e abriu uma parede, fazendo uma ligação entre as casas. Era praticamente uma casa só.
Cultura - Era uma família grande?
Paixão - Não, nós somos dois irmãos e uma irmã de criação. Meu avô materno era de Santana, Rodrigues D'Ávila; meu avô paterno era de Bagé, Paixão Côrtes. Meu avô materno sempre esteve ligado ao campo, tinha duas ou três estâncias no Interior, e eu me criei dentro delas. Desde pequeno, eu ia a essas estâncias, acompanhando meu pai, que era agrônomo.
Cultura - Ele tinha formação universitária?
Paixão - Ele se formou em Porto Alegre e depois estudou nos Estados Unidos por cinco anos.
Cultura - Isso devia ser bem raro na geração dele, não?
Paixão - Sim, era excepcional. Ele se formou em Porto Alegre, depois ficou cinco anos nos Estados Unidos. O bom foi que ele não teve apenas a vivência universitária, ele fez de tudo, foi peão de estância, conheceu bem a vida, como é o comum nos Estados Unidos. Aqui é que tem essa coisa de separação social. Ele trouxe essa bagagem norteamericana. Até na mesa se sentia a diferença, tinha doce e salgado ao mesmo tempo, a carne era quase crua, sucos, essa coisa do breakfast. Ele era funcionário da Secretaria da Agricultura e prestava assistência técnica naquela área de Santana do Livramento. Eu ia junto.
Cultura - Então a sua infância se divide entre cidade e campo sem distinção?
Paixão - Exatamente. Meu pai tinha uma chácara, um sítio, então permanentemente a gente ia para lá e fazia grandes festas. Ficava-se dois dias carneando, festeando, aí quando terminava um assado já carneavam de novo, lá vinha mais gente, e sesteavam debaixo das árvores mesmo, e seguia o baile. Era uma coisa.
Cultura - O seu avô também tocava?
Paixão - Sim, o João Pedro Rodrigues D'Ávilla. Eu tenho a gaita dele, de oito baixos. Sempre ouvi música em casa, era natural, nunca precisei procurar por isso.
Cultura - Nenhum dos ramos estava metido em política?
Paixão - Não. Meu pai tinha um grande poder de coordenação. Ele era muito benquisto na área rural. Então, nas lutas sociais, mais rico, menos rico, mais pobre, menos pobre, ele sempre foi um coordenador, um mediador. Era respeitado.
Cultura - O senhor fica em Santana do Livramento até quando?
Paixão - Até 1939, 1940. Eu tinha uns 12 anos. Fomos morar em Uruguaiana, porque meu pai foi nomeado diretor da Estação Experimental, um posto zootécnico bastante avançado.
Cultura - E a diferença entre as cidades?
Paixão - Em Santana tinha uma intimidade familiar, e em Uruguaiana meu pai ocupava um cargo importante do governo, então tinha uma outra ótica. Também por lá, ele me levava por tudo. Aprendi muito com ele me dizendo: "Olha lá, observa aquilo, tá vendo aquilo outro?".
Cultura - Quando o senhor veio a Porto Alegre pela primeira vez?
Paixão - Em 1935. Teve a exposição do centenário da Revolução Farroupilha, no que hoje é o Parque Farroupilha, e o meu pai era o responsável pela exposição da pecuária. Fez seleção dos grandes animais, etc. E eu andava com ele por tudo.
Cultura - E qual foi o impacto de Porto Alegre para o senhor?
Paixão - Teve um impacto, por exemplo, pelo bonde. Nós, na fronteira, chamávamos bonde o que é ônibus, na verdade.
Cultura - Fez o primário em Santana?
Paixão - Fiz o primário em Santana, com os maristas, e depois fui para Uruguaiana, onde vem o choque, porque fui estudar no Colégio União, que era protestante, metodista. Meu pai queria que eu tivesse uma visão diferente das coisas. Ele via no colégio americano uma nova visão, um outro trato de responsabilidade, de ensino, de exigência.
Cultura - 0 senhor fez primeira comunhão?
Paixão - Sim, sim. Mas no União havia muita liberdade, sempre houve respeito pelos credos religiosos. Depois vim para o IPA, fazer o Ginásio. E foi muito importante, porque o IPA me abriu outras perspectivas, com o lado da prática de esportes, que sempre gostei muito. Meus pais jogavam tênis, e eu jogava também.
Cultura - Jogar tênis era coisa rara pela região, não?
Paixão - Sim, e eu com cinco, seis anos, com uma raquete daquele tamanho, imagina (pisos).
Cultura - O senhor voltava para as fazendas com freqüência enquanto morava na Capital?
Paixão - Sim, nas férias eu ia para as estâncias de Bagé, de Júlio de Castilhos, de Cruz Alta, e lá de senvolvia toda a atividade normal de um peão de estância. E eram fazendas bem grandes, de duas léguas de campo, serviço puxa do. Uma das sedes da fazenda do meu tio, lá em Cruz Alta. ficava num extremo, e o trabalho a ser leito estava a duas léguas. A gente tinha que acordar às quatro da manhã, ir a cavalo para chegar às sete e meia, mudar o cavalo, e aí começar o serviço. Hoje é que me dou conta como era puxado para um guri de 13, 14 anos, como eu. Era uma fazenda tradicional, tudo no laço, sedes grandes, 2 mil animais, fazendo tropa e tudo. De noite, festeava-se, carneava-se, para, na manhã seguinte, bem cedo, tudo de novo. Serviço mesmo. Então, tudo que falo nas minhas atividades, hoje, não foi de palco que aprendi. Foi muito espontâneo e real.
Cultura - Lembra das músicas que tocavam?
Paixão - Sim. Era o bugio, limpa-banco, havanera, chote, rancheira.
Cultura - Se cantava alguma letra, junto?
Paixão - Sim, as letras que se cantavam eram as décimas. A Décima do Cavalo Baio, O Boi Barroso ...0 Boi Barroso é a mais expressiva manifestação da literatura galponera. Fora isso, umas valsinhas campeiras... (segue-se um improviso cantarolado e coreografado, para riso de todos).
Cultura - Voltando à sua trajetória, o senhor disse que veio estudar no IPA. E depois?
Paixão - Logo depois, quando tinha uns 17 anos, perdi meu pai, o que mudou toda a estrutura familiar. Tive que trabalhar e tudo o mais. Até os 17 eu tinha aquela vivência campeira. Ficava no campo do primeiro ao último dia de férias, na lida bruta, com animais, e doma daqui, e monta dali, e ginetea, e derruba, e cai e se quebra todo, e segue. E diariamente! Não era uma prova. Não tinha essas frescuras de hoje, de concurso e tal.
Cultura - O senhor teve que trabalhar e começou com o quê?
Paixão - Na Secretaria da Agricultura. O meu pai se dava muito bem com todo mundo lá, e como eles souberam da situação, disseram: "Vamos chamar o Paixãozinho", que era como eles me chamavam. Ou então era o "Peruzinho", porque o apelido do meu pai era "Peru". Então comecei no serviço de Ovinotecnia com o doutor Geraldo Veloso Nunes Vieira.
Cultura - E o senhor continuava estudando?
Paixão - Comecei a estudar no Julinho, de noite, em 1946. Terminei o curso científico em 1947. Então me oportunizaram um curso sobre técnicas de classificação de lã, e aí me especializei.
Cultura - Em que ano entra na faculdade?
Paixão - Em 1949, Agronomia, na UFRGS.
Cultura - Faz o curso normalmente.
Paixão - Não muito normalmente. (Risos). Porque aí eu começo a verificar essa ausência de preservação dos valores e da cultura gaúcha. Sou produto da II Guerra Mundial.
Cultura - O que o senhor lembra da guerra?
Paixão - Ah, eu acompanhava, mas nessa época já estava trabalhando e me mandam para o Interior, para o maior centro de comercialização de 1ã, Pelotas. Era um porto de alta responsabilidade. Eu tinha 17, 18 anos. Era tuna pegada violenta. Eu tinha que reformular a técnica toda, com 18 anos, para os velhos comerciantes (risos). Imagina, um guri chegando e dizendo: "Pára tudo!" (risos). Foi uma barra. E eu tinha que fazer o Tiro de Guerra, uma ou duas vezes por semana, à noite. Numa dessas noites, tomei o leite quente e me deitei com a galena nos ouvidos - nem bem rádio era - e ouvi: "Terminou a guerra!". Aí me vesti e saí para a rua, tinha toda a comemoração das pessoas nas ruas. E depois da guerra é que se intensificou a mudança no comportamento brasileiro e rio-grandense, porque os americanos descarregaram todo 0 poder econômico. que mudou tudo.
Cultura - No que o senhor via a chegada americana?
Paixão - Na música, que passou a ser a norteamericana: blues, jazz, as grandes orquestras, Tommy Dorsey, Glenn Miller. No cinema. Nos livros de tradução americana, bem comuns nessa época. O Capitão América. A Coca-Cola. Nem Coca-Cola tinha até então. Houve aí um episódio curioso. Como meu pai tinha revistas americanas, em que aparecia a Coca, eu tinha vontade danada de tomar aquilo. A gente só tomava guaraná. Aí fomos o Lessa e eu tomar Coca-Cola, num barzinho qualquer do Centro. Coloquei no copo, vi aquela coisa meio espumosa, provei. E achei aquele troço meio amargo (risos). Aí diziam que o bom era adocicar a Coca-Cola. Bom, coloquei açúcar e pum! (faz o gesto de explosão, com as mãos). Foi uma das imagens mais esquisitas... (risos)
Cultura - Como é que foi a idéia de fundar o "departamento de tradições" no colégio?
Paixão - Departamento de Tradições Gaúchas do Colégio Júlio de Castilhos. Como eu estava ausente da vivência contínua com a vida na campo que me era familiar, eu comecei a conversar com as pessoas e fui vendo que um era de Cruz Alta, outro de Bagé, não sei mais onde. E aí combinávamos: "Aparece lá para tomar um mate". Tomar mate, naquela época, só dentro de casa. Na rua, nem pensar. Nem na porta de casa. Bombacha ninguém ousava vestir em Porto Alegre.
Cultura - O senhor chegou a se sentir discriminado em Porto Alegre?
Paixão - Discriminado, propriamente, não. Porque quando nós entramos nessa história estávamos firmes: "Queremos isso, e ponto. As conseqüências, a gente vê depois. Tem que dá-le pau, dá-le pau" (risos).
Fernando Gomes/ZH

Paixão Côrtes recorda sua primeira Coca-Cola, aos tempos do pós-guerra:
"Achei meio amargo. Coloquei açúcar e pum"
Cultura - Mas antes de formar o departamento, o senhor chegou a se sentir constrangido pelos hábitos da cidade?
Paixão - Não. Eu tinha uma certa intimidade já com a vida de Porto Alegre. Mas acontece que na época estava se vivendo a ditadura Vargas. Tinha-se medo de ter uma bandeira do Rio Grande do Sul. As bandeiras regionais foram queimadas. Aqui nós escondemos, não queimamos, mas não podíamos usar, mostrar. Meus tios, por exemplo, eram muito pela preservação dos valores, além de serem veladamente contra o Vargas, então a gente ouvia essas coisas: "Cuida com o DIP" (Departamento de Imprensa e Propaganda). E aí isso já se misturava com o comunismo, tudo parecia uma coisa meio nebulosa. Por exemplo, além de não se ver a bandeira, não se cantava o hino. Então o pessoal do Interior se reconhecia no Colégio, se identificava. Começamos a nos encontrar para tomar mate, contar histórias. Coisa de galpão, mas como não tinha galpão, a gente inventava um. E nessa época praticamente não havia literatura regional. O único que ainda sobrevivia era o Vargas Neto. E o Antônio Chimango, é claro. Mas era uma literatura mais rebuscada. não a coisa galponeira a que nós estávamos acostumados. Daí surgiu a nossa idéia.
Cultura - Vocês logo perceberam que o Colégio Júlio de Castilhos poderia abrigar essa iniciativa?
Paixão - Ah, não foi tão simples. O negócio é que eu botava bota e bombacha e ia para a aula. E era aquele comentário só. Eu morava na Sarmento Leite, e o Júlio era o antigo, ainda (na João Pessoa, onde fica hoje a Faculdade de Economia da UFRGS). De noite, eu ia pilchado. Quando fazia frio, ia de poncho. Chovia, botava um chapéu. O pessoal falava: "Olha o guasca de fora", "Olha o guapo". E eu não me ofendia, sabia o que eu era, eles não estavam me ofendendo ao dizer aquilo.
Cultura - E as moças?
Paixão - Não tinha esse contato com as mulheres. Por exemplo, o galpão era só homem. Quando fundamos o 35, era só homem. E o galpão é a célula fundamental da nossa gente. Nós nos criamos ali, em volta, tomando mate. As moças não participavam. Elas estavam em outra. "Miss", "Star", tudo nome americano. E eu fui indo, vestido assim. Foi aí que eu comecei a pensar: por que a gente não faz um núcleo de resistência a essas loucuras norte-americanas e tudo o mais que está aí? Fui bolando, pensando, sozinho. E o Grêmio Estudantil tinha de tudo - esperanto, teatro, e não sei mais o quê. Fui nas reuniões, três sábados seguidos, e era sempre a mesma coisa: "Não sobrou tempo para ti, Paixão". Tudo bem, lá ia eu no outro sábado de novo. Um dia expus a coisa: "Acho que a gente deveria preservar as nossas tradições", etc., preparei um arrazoado. Tinha a Chama da Pátria, no 7 de setembro, data magna da pátria. Foi aí que tive a idéia de tirar uma chama da pira da pátria e levar para o Júlio de Castilhos, fazer uma continuidade da chama da pátria, lá num candeeiro, até o 20 de setembro. E o pessoal dizia: "Mas como?". Então fui na Liga de Defesa Nacional, um órgão muito importante na época, eu conhecia o major Vignolli, apresentei minhas intenções, numa carta que nós tínhamos preparado. Ele me perguntou: "Então, qual é a idéia?". E eu, numa insolência que só hoje percebo, respondi: "Vou tirar uma centelha da pira da pátria para levar para o Colégio Júlio de CastiIhos". Imagina, eu com 18, 19 anos. Aí ele chamou um sujeito: "Ô Pimentel, vem aqui". O sujeito chega e diz: "E aí, Paixãozinho, como é que vai?", todo entusiasmado. Era amigo do meu pai, com quem tinha trabalhado lá em Santa Maria, me conhecia desde pequeno. E perguntou: "O que é que tu estás fazendo aqui?". A idéia era prolongar do 7 de setembro até o 20, da Revolução Farroupilha. Aí eles me perguntaram como é que eu queria fazer isso, se era a cavalo, como é que era e tal. Eu tinha pensado em três cavalos - um com a bandeira do Rio Grande, outro a bandeira do Colégio Júlio de Castilhos e outro com a bandeira do Brasil.
Cultura - E quem eram os seus parceiros?
Paixão - Eram o Ciro Dutra Ferreira e o Fernando Machado Viana. Na saída, o doutor Pimentel me disse que estavam trazendo os restos mortais do Davi Canabarro. Quem traria era o Coronel Canabarro. Eu disse: "Mas ele é casado com uma prima minha!". Enfim eu estava em casa! Então ele me diz: "Estamos com um problema: não arrumamos gaúchos para fazer um costado (guarda de honra). Tu não me arrumas uns gaúchos". E eu: "Para quando?"
Cultura - O que ele queria dizer com "gaúchos"? Por que ele os queria?
Paixão - Porque o Davi Canabarro era uma figura da Revolução Farroupilha, da Guerra do Paraguai, e era para ser trazido para o Pantheon do Rio Grande. Um negócio cívico. Disse para ele que ia tentar, fui falando com um e com outro, fazendo uma exaltação do Canabarro. Convencia um, que convencia outro. Mas aí não tinha arreio. E cavalo? Não tinha. Fui falar com o doutor Pimentel: "Olha, consegui um piquete bom. Gente firme. Mas não temos cavalo, nem arreio". O doutor Pimentel disse que conseguia os cavalos, do Regimento Osório. "E os arreios?", perguntei. "Isso vai ser dificil". Falei para ele: "O senhor me arruma uma caminhonete e dois homens que eu dou um jeito". Cinco horas da manhã saímos em direção a Belém Novo. Foi clareando o dia e iam aparecendo aquelas figuras a cavalo; eu mandava parar a caminhonete e começava a dar um discurso sobre o gaúcho, a pátria, o gauchismo, e os caras ficavam atônitos (risos). Assim arranjei 14 arreios. Só na palavra! Devolvi um por um, eu mesmo. Montamos os arreios e conseguimos oito pessoas. Faltou gente para montar, as pessoas ficavam com vergonha. Tu podes imaginar oito loucos vestidos de gaúcho, de faca?
Cultura - E o que as pessoas achavam?
Paixão - Não dava para achar, porque a gente "nem tava"! E as pessoas ficavam atônitas. Viemos lá do Regimento Osório, descemos a antiga Rua da Conceição e apertamos os arreios defronte ao Hotel Umbu. Nós íamos ficar por ali, tomando um trago e tudo o mais, esperando o cortejo que vinha do aeroporto. Chega a polícia: "Estão armados? Não pode. Estão presos". E aí começou a argumentação.
Cultura - O senhor era o embaixador deles?
Paixão - Não, todo mundo falava. Menos o Siqueirinha, que até hoje não fala (risos), o Antônio João Sá de Siqueira, médico veterinário.
"Para nós, não era folclore. A palavra era tradição"
Nesse trecho da entrevista, Paixão Côrtes revê a consolidação e a expansão do movimento tradicionalista, a partir do final dos anos 40
Arquivo pessoal/ZH

O menino João Carlos Paixão Côrtes, ainda no interior, aos cinco anos
Cultura - A polícia queria levar você?
Paixão - Queria. Um deles perguntou: "De onde o senhor é?". Eu respondi. E ele: "Mas é lá dos meus pagos!". E nos encontramos. Aí um dos policiais disse para gente cobrir a faca com o pala para não ficar mal para eles. Nisso passou o jipe com os restos mortais do Canabarro, montamos e fomos atrás. Seguimos em direção ao Centro, até a Praça da Alfândega. Ali, numa solenidade, com escolas, políticos e tal, não hastearam a bandeira do Rio Grande, nem tocaram o nosso hino. Só o hino nacional. Houve uma saudação do dr. Dante de Laytano, não lembro de quem mais. Ficamos por ali, ao lado da Brigada. Nesse momento, um guri pequeno e magrinho veio nos procurar. Falou com o Ciro Dutra Ferreira: "De onde é que vocês vieram?". E o Ciro: "Daqui mesmo, estudamos ali no Júlio de Castilhos". E o magrinho: "Mas como? No Júlio? E como é que eu não sei disso?". Ele estudava de tarde, e nós de noite. Aí o Ciro mandou ele falar comigo: "Fala com aquele bigodudo lá da ponta". Combinamos que ele iria aparecer de noite lá no Júlio. Era o Barbosa Lessa.
Cultura - O que lhe chamou atenção nele?
Paixão - As coisas que ele falava sempre estavam relacionadas à História. Ele sempre costurava com uma referência da História. Não era um homem campeiro, com a linguagem campeira, apesar de ter uma experiência parecida com a nossa. E ele tocava violão, já arranhava umas quadrinhas. Depois disso é que veio a Ronda Crioula, a Semana Farroupilha, o Candeeiro Crioulo, apareceram outros que não eram gaúchos nem nada, eram simplesmente urbanos. como o Ivo Sanguineti, que era um cara dedicadíssimo, dormia lá para que o fogo não apagasse, E foi até o dia 20 de setembro, com palestra com o Manoelito de Ornelas.
Cultura - Como é que o Manoelito de Ornetas, que era um grande intelectual, foi até o colégio, para falar com uns guris gaúchos?
Paixão - Eu é que o convenci. Peguei o Ciro e fomos até a casa do Manoelito. Ele tinha a Prosa da Terças, seção do Correio do Povo; então nós ligamos e nos apresentamos: "Olha, nós somos estudantes, o senhor poderia nos receber?". Apresentamos para ele o que estávamos fazendo e pedimos para ele falar. Na época ele estava lançando o livro Gaúchos e Beduínos. Quem acabou ficando na conferência foi o Lessa, porque foi de tarde, e eu tinha que trabalhar. Mas o melhor é o seguinte: convidamos o Manoelito para ser jurado do baile! Não sei até hoje como tivemos a petulância de fazer uma coisa dessas... O baile foi lá em Teresópolis.
Cultura - A idéia era fazer uma representação da vida campeira?
Paixão - Não! Para reviver! Não tinha nada de patacoada! Era reviver os nossos hábitos, puramente. Café de chaleira, pastel de carreira, fogo no chão, fumaça. E a música foi uma coisa! Falei com um. maestro e pedi uma banda para o baile e ele me disse: "Eu tenho bandinha". Era dessas de alemão. Aí não dava! (risos). Mas ele me disse: "Eu te arrumo gaiteiro, tocador de violão e tal".
Cultura - Qual era o repertório?
Paixão - Rancheira, xote, polca, de vez em quando tocavam um dobrado, desses da zona alemã, umas marchinhas meio cívicas...
Cultura - E o Manoelito de jurado?
Paixão - No meio daquela bagualada... (risos). O Ciro e eu fomos buscá-lo de auto, pilchados, e ele todo formal, de gravata. Ele ficou encantado. Escreveu uma crônica, depois, contando do baile e dizendo aquilo que nós tínhamos explicado para ele - para nós, não se tratava só das roupas, das danças, era também a dignidade, a moral do nosso povo.
Cultura - Vocês falavam abertamente sobre esse desconforto com o americanismo?
Paixão - Sim! Era só uma questão de analisar, de observar: o que é que tinha de música nossa? O Boi Barroso, Prenda Minha, Gauchinha e Minuano.
Cultura - E como foi a expansão do movimento, da idéia de tradicionalismo?
Paixão - Fundamos o Departamento, com aquela loucurada toda de trazer a chama e o ato cívico que se seguiu, o baile com mais de 200 pessoas, e depois nós perguntamos: "E agora?". Porque aí mais gente apareceu, gente que nem nos conhecia, e foi então que o Lessa disse: "Temos que nos reunir para formar um clube de tradições". Ele saiu por aí com um caderninho pegando nome e endereço de tudo que era gente interessada em participar e começamos a nos reunir na minha casa, o nosso primeiro quartel-general, e foi enchendo de gente. Aquilo começou a crescer, começou a chegar mais gente, gente de cabeça branca, gente séria...
Cultura - O senhor conheceu o Aureliano de Figueiredo Pinto?
Paixão - Não. Os literatos não existiam na forma da popularidade. Quem é que ia dizer verso do Aureliano? Tinha que ser declamador ou o próprio poeta. Declamador não tinha, ninguém queria se expor ao ridículo de dizer versos. Nós vínhamos de baixo, e a literatura era para os nobres. os sábios, os intelectuais, os dominadores da lingüística...
Cultura - E o senhor se lembrava do seu pai, por essa época?
Paixão - Sim, porque o meu pai, quando eu estava em Uruguaiana, comprava uns livrinhos. Queroquero, do Roque Callage, e me fazia ler. E lá em Uruguaiana tinha o Grêmio Literário Castro Alves. E nós éramos da campanha, então fundamos um grêmio literário Catulo da Paixão Cearense.
Cultura - Por que o Catulo?
Paixão - Porque era um poeta popular. falava das coisas da terra, com termos regionais. Eu era muito - guri, não cheguei a fundar, mas estava lá. Só declamava noemas do Paulo Setúbal, João, o Tropeiro. E foi ai que eu comecei a aprender a declamar.
Cultura - Vocês se sentiam fora disso?
Paixão - Não, é que nós vivíamos e os outros cultuavam (risos). Até aproximar uma coisa da outra, levou tempo. Eu fui um dos primeiros a sair por aí á declamar versos e tudo mais.
Cultura - Como é que o senhor e o Lessa começam a fazer pesquisas de cultura popular?
Paixão - Quase não havia elementos para se consultar. A gente ouvia coisas de citação. Queríamos sedimentar nossa cultura, formar a sociedade tradicionalista. Quando a gente foi registrar o 35 no cartório, não permitiram! Tivemos que mudar "patrão" para presidente, "capataz" para, sei lá, "vice-presi dente". Para sedimentar a simbologia do universo da estância, a idéia do patrão, do capataz, do posteiro, da invernada, não foi fácil. E também tinha muito gaudério meio grosseirão, que ia mais pela patacoada, e nós tínhamos que controlar.
Cultura - E suas pesquisas com o Lessa? Ele era o seu maior interlocutor?
Paixão - Sim, havia uma identificação muito forte. Então veio um convite do governo uruguaio para uma representação brasileira de gaúchos no Dia de la tradición, em Montevidéu, em 1949. Mas aí vieram os gaúchos das guerras de 93 e 23 com as papagaiadas. "Porque eu sou maragato!", dizia um, aqui, e outro vinha com "Eu sou pica-pau", e nós tivemos que afastar isso "Aqui não se discute isso!". Os ânimos estavam assim, ainda mais que tinha acabado o Estado Novo, tinha um clima de revanche, de acerto de contas.
Cultura - Como se dá a fundação do 35?
Paixão - O nome nós decidimos numa reunião em 5 de janeiro de 1948, mas a fundação foi em 24 de abril. E quando veio o convite uruguaio, o governo de Walter Jobim viu que o CTG 35 era uma gurizada e achou melhor, por precaução, mandar junto uns oficiais da Brigada, uns tipos excelentes. Em Montevidéu, desiflamos e declamamos, foi uma beleza! Aí chegou a hora da dança. E os castelhanos nos perguntavam: "Que danças vocês têm?!
Cultura - Que danças vocês tinham?
Paixão - Nós não tínhamos nada. E o que eu me perguntava era como os argentinos e os uruguaios tinham aquele monte de dança e nós não tínhamos nada. E o Lessa dizia "O Cezimbra Jacques diz isso, O Walter Spalding aquilo." Ele já tinha lido tudo.
Cultura - E já existia a noção de folclore?
Paixão - Não! Não tinha nada. Em 1947 foi a Unesco que definiu um apoio ao folclore, da Unesco se chegou à Comissão Nacional, e a Regional só se fundou aqui em 1948, depois da fundação do 35.
Cultura - E vocês se identificavam com a palavra "folclore"?
Paixão - Não, para nós a palavra era "tradição". Hábitos e costumes dos nossos antepassados. Foi daí que começou a nossa pesquisa. Não tinha descrição nenhuma, partitura nenhuma, então o Lessa e eu começamos a procurar. Eu viajava muito, pelo serviço, então íamos cada um para um lado. Começou em Palmares. Eu estava falando com um rapaz sobre danças tradicionais e ele me falou da tal "dança do pezinho". Eu não sabia: "Que dança do pezinho? Vocês dançam isso?" E o cara: "Claro, lá na praia, nas festas". E aí formou-se um grupo e nós fomos a Palmares para pesquisar. Bem, se a cem quilômetros de Porto Alegre tem uma dança dessas, como é que não vai ter por esse Estado inteiro?
Cultura - E o senhor viajava mas era funcionário da Secretaria de Agricultura, ainda?
Paixão - Sim, era só nos finais de semana que dava para fazer a viagem. Um dia o Ênio Freitas e Castro, que era da Secretaria de Educação, emprestou um gravador primitivo. Eu pagava duas passagens e levava o gravador.
Cultura - E quem é que custeava?
Paixão - Ora, quem é que custeava, eu! (risos). Já era loucura falar no assunto, imagina que alguém ia dar dinheiro para essas bobagens (risos).
Cultura - Quando é que se dá a fundação do grupo de dança?
Paixão - Em 1953, com Os Tropeiros da Tradição. De 1949 a 1952, o Lessa e eu juntamos 20 e poucas danças.
Cultura - E fazendo a faculdade junto?
Paixão - Faculdade e trabalho!
Cultura - Demorou para se formar?
Paixão - Sim, porque aí surgiu a oportunidade de divulgar as tradiç8es pela Europa, em Paris, em 1958. Aí eu cancelei a minha matrícula, tirei licença-prêmio na Secretaria e fiquei cinco meses bebendo e comendo naqueles cabarés franceses... Eram dois pares de dança e quatro músicos. Eu não conhecia nada de Paris, fora uma coisa ou outra de leitura. E não tinha salário, lá, porque os meus vencimentos estavam aqui. E mesmo assim fiquei cinco meses lá comendo e bebendo e indo pra lá e pra cá. só dançando, só sapateando.
Cultura - O senhor se apresentava em bares...
Paixão - Não, em teatros, em televisão, eu e o grupo todo. Era uma coisa completamente diferente, eles nunca tinham visto uma coisa daquelas. E o conjunto Os Gaudérios era um fenômeno.
Cultura - E como é que foi chegar a uma cidade com centenas de anos, com cultura letrada antiga, levando daqui uma coisa que poucos anos antes ninguém conhecia?
Paixão - É que o europeu tem essa cultura, sabe o que é o primitivo, ele conhece o autêntico. E como Paris era a capital do mundo cultural, todas essas manifestações passavam por lá. Então, os seletos representantes vão a grandes programas. O Olympia de Paris, Hôtel-de-Ville, grandes lugares. De Paris eu fui a Roma. Quando voltava de Roma, de trem, um siciliano fica me encarando até que ele me pergunta o que eu faço, e eu digo: "Eu danço, vivo da dança". Aí ele disse que tinha me visto, pela televisão, da Sicília, dançando em Paris.
"Paixão desde guri"
O escritor e jornalista Carlos Urbim, conterrâneo do célebre folclorista, revive a infância do menino João Carlos, já atento àqueles tempos para os pequenos requintes da vida doméstica e as manifestações culturais do povo rio-grandense.
Por Carlos Urbim.
Escritor e jornalista, autor de Um Guri Daltônico, entre outros livros
Ao preencher os espaços vagos no álbum Nosso Bebê, comprado havia meses na Livraria A Predilecta em Bagé, Dona Maria Fátima D"Ávila Paixão caprichou na caligrafia. Na página da dedicatória, chamou o marido, que assinou Julio Paixão Côrtes no lugar destinado ao papae. Com carinho e cuidado, a mãe registrou os dados na página sobre o nascimento: às três da madrugada do dia 12 de julho de 1927, na casa número 101 da Rua Rivadávia Corrêa, nasceu em Santana do Livramento uma criança do sexo masculino, pesando quatro quilos e medindo 59 centímetros. tia página sobre as roupinhas, com muitas linhas para o rol, Dona Fátima declarou com econômico orgulho: o bebê, ao nascer, já possuía o enxoval completo.
Entre os casacos, mantilhas e sapatinhos tricotados, estavam também a certeza de uma infância feliz e a paixão que começou desde guri. Na esquina da Rivadávia com a Rua Uruguai, entre a casa dos pais e a dos avós maternos, o menino João Carlos ouvia todos afirmarem: foi bem aqui que o argentino José Hernández, depois dos entreveros da Guerra do Paraguai, começou a declamar os primeiros versos do célebre Martim Fierro. Nada melhor para um moleque curioso, que um dia entregaria a vida à pesquisa da cultura popular.
Arquivo pessoal/ZH

O monumento também foi pequeno:
Paixão Côrtes com apenas quatro meses
Os pátios das duas casas - imensos - eram interligados. Em torno do poço, os jardins e a horta com abóboras, alfaces, couves, repolhos, nabos, beterrabas e cenouras. Mais adiante, o pomar com laranjas, pêssegos, uvas, bergamotas, limas, abacates. Tão grandes eram os pátios que o pai, técnico de ovinocultura da Secretaria da Agricultura, trazia cordeirinhos quando voltava das viagens de inspeção. Eram os bichos de estimação do guri que, adulto, enveredaria pela mesma profissão e se tornaria expert na classificação de ovinos.
Está no sangue, qualquer Ávila gosta de tocar um instrumento, cantar e dançar. Tem sido assim desde os primeiros que vieram do condado de Ávila, em Portugal. O avô, João Pedro Rodrigues Ávila, alto, moreno, bigodudo, tirava da gaita de oito baixos rancheiras e polquinhas de limpar banco. Foi repassando para o neto o gosto pelos ritmos e pelas coreografias das danças campeiras. E o piá herdou ainda a predileção por bigodes imensos, que se tornariam uma característica.
Bem que João Carlos tentou. Foi, durante dois anos, aluno assíduo e esforçado nas aulas de piano da Dona Mosquita. Aprendeu a ler partituras e a aprimorar o ouvido, lições que aproveitaria para sempre, mas desistiu de ser pianista. Nas festas dos Ávilas, passou a cantar e dançar. E o interesse pelas indumentárias pode ter nascido numa fusão cultural só possível no Carnaval: quando tinha cinco anos, usou pela primeira vez pilchas gaúchas. E lá se foi ele para o baile infantil de chiripá, lenço, bombacha, bota e chapéu virado na testa. Se tivesse na mão um laço, em vez de pacotinho de confete e bisnaga de lança-perfume, não seria o esboço inicial de uma estátua?
O gosto pelos detalhes, pequenos requintes da vida doméstica e as manifestações culturais do povo rio-grandense, tudo com o jeito artístico dos Avilas, vem junto desde a Rua Rivadávia Corrêa. Baixinha, delicada, a avó espalhava aromas de essências pela casa. No banho, jamais esfregava o rosto de maçãs largas, para conservar a pele cor de cuia. Habilidoso, o avô sentava na frente de casa para esculpir palitos. Espalhava na calçada pedacinhos de sarandi bem maleável e, com faca afiadíssima, moldava centenas de palitos. Os prontos iam para caixas de chá da índia. Não havia visita que não saísse com uma caixinha de presente.
Quem é Ávila tem olhos vivos, contornados por olheiras. De tanto querer ver tudo. Movido por essa paixão, o guri de Livramento se mudou para Uruguaiana, onde foi escoteiro e craque de basquete. Quando estava mais taludo, veio de muda para a Capital, como aluno do internato do IPA. E aquele pimpolho do álbum Nosso Bebê um dia virou modelo de monumento, esculpido por Antonio Caringi. Adulto, chegou a 1m82cm. Mas a escultura de bronze inaugurada em 20 de setembro de 1958 na porta norte de Porto Alegre tem 4m45cm de altura, pesa 3,8 toneladas e está sobre um pedestal de granito de 2m10cm. De bom tamanho para quem nasceu com quatro quilos e 59cm.
Fonte: Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 15 de maio de 2004.

Textos de
Luís Augusto Fischer (Escritor, professor de Letras da UFRGS) e
Eduardo Wolf (Professor de Letras do Colégio Leonardo da Vinci)

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